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Próximos
e Distantes Marcelo
Henrique Pereira
Pense no trabalho que você realiza na Instituição Espírita
com a qual mantém laços de afinidade. Recorde todos aqueles momentos
em que, desinteressadamente, você deixou seus afazeres particulares,
para realizar algo em prol dos outros – e, conseqüentemente, para si
mesmo. Compute todas aquelas horas que você privou seus familiares e
amigos mais diletos da convivência com você, por causa desta ou
daquela atividade no Centro. Ainda assim, rememore quantas vezes você
deixou seu bairro, sua cidade, e até seu estado ou país, para realizar
alguma atividade espírita, a bem do ideal que abraçaste... Pois bem,
foram vários os momentos de serviço, na messe do Senhor, não é
mesmo? Quanta alegria experimentada, quanta gente nova que você
conheceu, quantos “amigos” você cativou, não é assim?
Tão próximos... Você e os outros... Pareciam, até, uma família!
Agora, dedique alguns minutos de sua atenção para vislumbrar o
cenário que vamos reproduzir aqui. Garantimos que ele é a mais pura
expressão da verdade. A semelhança deste relato com os fatos e
acontecimentos da vida real não terá sido mera coincidência.
A personagem de nossa história é uma
senhora idosa, 70 e poucos anos. Depois de uma vida ativa, no
serviço público, no intercâmbio familiar, onde criou seus filhos e
netos, e do trabalho de algumas décadas nas instituições espíritas
da região, em diversificadas atividades, adoeceu. Gravemente
enferma, não pode mais se dirigir ao centro, para continuar
fazendo com carinho o que sempre fez, atender àqueles a quem tanto
consolou e amou. Dos amigos do centro, apenas uma vaga lembrança,
porque nunca recebeu uma visita, nem daqueles que lhe eram mais próximos,
com os quais nutria uma maior afinidade. Abandonada, até pelos entes
mais próximos, está triste, deprimida, desconsolada...
Onde estão nossas tão decantadas
fraternidade e solidariedade espíritas? Onde foram parar seus
“amigos”? Até que ponto nós que ombreamos lado a lado as
atividades da seara espírita prezamo-nos mutuamente, de modo que, entre
nós, além do coleguismo do convívio, sejam formados laços reais de
amizade e companheirismo? Ou será
que eles, os colegas de trabalho e atividade espírita não perceberam
que aquela senhora, de repente, não apareceu mais? Que ela possa estar
doente ou necessitada? Será que ela não estará precisando de alguma
coisa? Ou, transmutando a situação para nós, que estamos “no
centro”, será que nunca perguntamos onde os membros do nosso grupo
moram, nem nunca fomos fazer-lhe uma visita, só para saber onde eles
moram? Ou, ademais, nunca os recebemos em nossa casa, porque nos falta
tempo, ou porque “não queremos misturar as coisas”?
Sentimo-nos muito tristes...
Decepcionados conosco mesmos...
E, ao vermos tanta perda de tempo no movimento dos espíritas,
para discutir “o sexo dos anjos”, a “pureza doutrinária”, “o
que é ou o que não é espiritismo”, se “é ou não é religião”,
se Cristo “foi isto ou aquilo”, se aquela casa, que realiza a
atividade “x”, “é ou não é genuinamente espírita”, que
deixamos de lado a “poesia” da mensagem espírita,
que consola e esclarece, que levanta e acaricia, que intui e
liberta, fique presa aos condicionamentos e às exterioridades dos rótulos,
da presunção, da arrogância, da prepotência, da “seleção
espiritual” conforme nossos requisitos (pessoais) de conveniência e
oportunidade.
Choramos... Ao visitá-la, porque seu carinho para com o trabalho
de imprensa espírita que realizamos, e o seu receio de que ela
estivesse atrasada no pagamento da assinatura do periódico a levou a
telefonar para nós, percebemos o quanto
necessitamos uns dos outros, e como somos duros e rudes com
nossos semelhantes... Decepcionados
– conosco e com os outros – nos vimos naquela irmã, imaginando o
que nos pode acontecer daqui há algumas décadas...
Será que também padeceremos do abandono, da solidão, da falta de
carinho? Será que também mendigaremos uma visita, um atendimento, uma
conversa, ou ficaremos, sós, à espera da morte? O que aconteceu com
aquele grupo grande, com muita alegria e conversa, que se reunia
semanalmente no centro? Com certeza, não sentiram a falta da velha
senhora, ou porque nos achamos melhores do que os outros, ou porque ela
era mais um número de nossas estatísticas, já tendo sido substituída
por alguém mais jovem, mais atuante, mais risonho...
Então, meu amigo, minha amiga, o que você acha que lhe espera,
daqui a alguns anos?
Tão próximos e tão distantes... Eu, você
e os demais “trabalhadores” espíritas se preocupam tanto com
o “caráter” do trabalho, com os “resultados”, com o
“cumprimento de obrigações e regulamentos”, que esquecemos de ser
gente...
Que pena!
Mas, ainda é tempo de mudar este quadro... Hoje, amanhã, na próxima
vez que você voltar ao centro. Conte aos seus “colegas” esta história,
e proporcione um debate e uma reflexão, no cenário da casa em que você
trabalha... Mude paradigmas, empreste mais “humanidade” às
tarefas, transformando o convívio maquinal e obrigatório em uma relação
de sólida amizade e bem-querência...
Humanize sua Instituição!
Amanhã, poderá ser tarde, muito tarde... |