Movimento ATITUDES DE AMOR – Saara Nousiainen

 

Terceiro período do Espiritismo

É fácil perceber que estamos vivendo o final de uma civilização decadente, mas também já é possível observar que estamos iniciando um processo de transição de mundo de provas e expiações para o de regeneração. Isto muda muita coisa.

Nos meios espíritas é onde devemos estar mais atentos para o papel que nos cabe nessa transição, em virtude dos conhecimentos transcendentais da Doutrina que professamos, da assistência permanente dos espíritos benfeitores, e dos compromissos que assumimos com nossa própria consciência e com os que avalizaram nossa reencarnação.

Conforme Bezerra de Menezes, estamos adentrando o terceiro período do Espiritismo, que deverá ser o das atitudes.

Essa informação está contida num relato feito pelo espírito Cícero Pereira no livro Seara Bendita, psicografado pelo médium Wanderley Soares de Oliveira (MG). Nesse relato Cícero descreve um memorável encontro ocorrido no mundo espiritual, ao término do Congresso Espírita Brasileiro de 1999, em Goiânia. Desse encontro participaram mais de cinco mil espíritos desencarnados e encarnados, quando então Bezerra, em nome do espírito Verdade, apresentou uma série de diretrizes que representam verdadeiro planejamento estratégico para o novo período do Espiritismo, que se iniciaria com o novo século.

O primeiro período, de setenta anos, conforme explicou naquela ocasião, constituiu o período da consagração das origens e das bases em que se assentam a Doutrina, as quais lhe conferiram legitimidade.

Os setenta anos seguintes representaram o tempo da proliferação.

Com relação a este terceiro período, de outros setenta anos, disse Bezerra:

“Esse novo tempo deverá conduzir a efeitos salutares a nossa coletividade espírita, criando entre nós, seus adeptos, o período da atitude. O velho discurso sem prática deverá ser substituído por efetiva renovação.”

“O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem espíritas e assumam designação religiosa formal”.

“A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia e inexperiência tratá-la como joio. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos”. (Grifos nossos)

Como podemos perceber por estas rápidas pinceladas, as diretrizes trazidas por Bezerra são de molde a mudar paradigmas e essas mudanças são absolutamente necessárias, para podermos acompanhar a transição em andamento, porque transição sempre muda muita coisa.

O discurso de Bezerra foi todo vazado numa linguagem muito forte, peremptória, imprópria de seu estilo suave, porque naquele momento ele estava transmitindo o pensamento do Espírito Verdade, em orientações de grande importância e seriedade para o movimento espírita.

Já o detalhar dessas diretrizes, quanto a formas, roteiros e procedimentos, vem sendo trazida do mundo espiritual por diversas vias, principalmente através do espírito Ermance Dufaux, nos livros psicografados por Wanderley S. Oliveira (MG), tais como Mereça ser Feliz, Laços de Afeto, Reforma Íntima sem Martírio e Unidos pelo Amor, editados pelo INEDE (MG), representando poderosos instrumentos para o desenvolvimento dos valores da afetividade e crescimento interior do ser.

Ermance, em sua última encarnação, foi uma das médiuns da codificação. Hoje, ao lado de Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, Maria Modesta, Cícero Pereira e outras entidades de escol, vem trabalhando intensamente para difundir essas novas idéias, visando sua materialização nos ambientes espíritas, pois conforme disse Bezerra, referindo-se ao novo período do Espiritismo, “o núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem”.

Bezerra refere-se às instituições espíritas como “templos de crenças”. O que isto significa?

Certamente ele se refere à crença no conhecimento espírita em ambiente de templo, onde nos reunimos para manifestar nossa fé, dentro das diretrizes do Espiritismo. Até aí, tudo certo, mediante nossa visão atual. Mas é bom observar que nesse ambiente da nossa fé há muita disputa de variada natureza, e há aquela idéia de que somos os únicos detentores da Verdade, por cuja pureza devemos lutar “com unhas e dentes”, porque nela está a salvação da humanidade.

É aí onde Bezerra, com muita clareza, apresenta um novo paradigma, pelo qual o centro espírita deverá sair desse patamar de mero “templo de crença”, para uma “escola capacitadora de virtudes” e formação do homem de bem.

Reflitamos juntos sobre o significado dessas palavras:

a) fica claro que capacitar o ser para a vivência das virtudes é mais importante do que a crença que ele possua, porque a humanidade, para evoluir, necessita de “homens de bem”, sendo de somenos importância o que acreditam em termos de religião. Não é alguma doutrina ou religião que vai salvar o mundo, mas sim, o próprio homem, quando tornar-se mais fraterno e ético. Assim, o foco principal do Espiritismo, ou das atividades espíritas, deverá sair do emaranhado de discussões doutrinárias que a nada de bom conduzem, passando a ocupar-se com mais intensidade do seu aspecto de escola, na qual se aprende a vivenciar o amor, a fraternidade, a alteridade, a honestidade e demais virtudes que fazem do ser numa presença sempre benéfica.

Com esse foco os espíritas estarão praticando verdadeiramente o amor ao próximo e, atuando conscientemente na transformação do ser humano.

Alteridade

Mas o que significa essa alteridade de que fala Bezerra?

Esse é um termo que vem sendo cada vez mais utilizado, não apenas nos meios espíritas, e seu significado reflete uma nova mentalidade, aquela que irá vigorar na civilização que deverá transformar a Terra num mundo de regeneração, porque se refere à aceitação das diferenças; também significa a não-indiferença, o aprender com os diferentes, o amar ou ser responsável pelo outro, aceitando e respeitando as suas diferenças.

É uma palavra que representa, em sua profundidade, as leis cósmicas de convívio entre os seres.

A pessoa que a vivencia passa a ser mais fraterna em todos os sentidos, deixando de criticar, julgar, agredir, excluir...

A não-crítica, a não-agressão, o não-julgamento deixam o ser em paz consigo mesmo, com a humanidade, com a vida.

Aí você poderá contestar dizendo que atitudes assim tornam a criatura alienada. Mas há grande diferença entre analisar de forma construtiva e julgar, criticar, marginalizar, excluir, desprezar, enviar uma vibração negativa para o que se considera inferior ou errado, seja ele uma pessoa, uma instituição ou uma nação, já que as instituições e as nações são formadas por pessoas.

O ser humano, dentro dos seus critérios de crítica, habitou-se a tudo rotular. Assim, vendo os outros sob o enfoque dos rótulos que lhes colocamos, geralmente irreais, quase sempre mantemos esses enganos durante toda a vida. Por exemplo, se em algum momento concluímos que “fulano” é preguiçoso, estamos lhe colocando esse rótulo e, a partir de então, sempre o teremos na conta de preguiçoso, a não ser que algum fato novo venha nos provar o contrário.

Pense por alguns instantes, caro leitor, sobre quais rótulos os outros lhe terão aplicado...

Numa postura alteritária os rótulos tendem a desaparecer, porque passamos a ver o outro como alguém que vem de longos percursos reencarnatórios, assim como nós mesmos, tendo aprendido muito com as lutas, dores e alegrias dos caminhos, mas ainda com muitas falhas, um tanto imaturo em termos de evolução e necessitado de crescer interiormente, exatamente como nós próprios. Assim, podemos mais facilmente amá-lo apesar das diferenças, respeitando seu inalienável direito de ser como deseja, porque tudo é aprendizado no bojo da vida.

Quanto aos relacionamentos nos meios espíritas, voltemos às sábias palavras de Bezerra:

“A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia e inexperiência tratá-la como joio. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos”.

Sendo pois a “diversidade uma realidade irremovível da Seara”, importa que todos os segmentos, se dêem as mãos fraternalmente, alteritariamente, e despreocupados de detalhes ou diferenças doutrinárias, voltem-se para cuidar com todo esmero da questão fundamental: desenvolver amor nos meios espíritas, porque é ele, o amor, o mais importante de tudo. Aqueles que dão grande importância aos detalhes doutrinários, quando aprenderem a amar verdadeiramente, encontrarão meios pacíficos e agregadores para debaterem suas idéias e tentarem convencer aos que entendem estar em erro. A propósito, os segmentos citados por Bezerra refletem as diversas tendências existentes no movimento espírita: os que pugnam pela “pureza doutrinária”, os que seguem as idéias de Roustaing, os que se identificam com o pensamento de Ramatís, de Pietro Ubaldi, de Edgar Armond, os que têm maiores afinidades com Chico Xavier, etc..

Amor

 Se refletirmos minimamente sobre a situação do nosso movimento espírita, perceberemos de logo que o seu maior e mais doloroso problema está na ausência de amor, de afeto nas relações entre os companheiros e destes para com os que nos procuram, necessitados de ajuda. No entanto, o Mestre recomendou enfaticamente, “Amai-vos uns aos outros”, e informou, “Meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem”.

Diante desta tão simples constatação podemos perceber que a ação mais importante e urgente está em se desenvolver amor e afeto nos nossos meios.

O amor, em termos de evolução, é tão importante quanto o próprio ar que respiramos. Informam espíritos benfeitores que nas dimensões espirituais mais elevadas a sua nutrição está essencialmente no amor. O grande apóstolo Paulo de Tarso disse: “Ainda quando eu falasse todas as línguas dos homens e a língua dos próprios anjos, se não tiver amor serei como um bronze que soa, ou um címbalo que retine. Ainda quando eu tivesse o dom da profecia, que penetrasse todos os mistérios e tivesse perfeita ciência de todas as coisas, e ainda quando tivesse toda a fé possível até o ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada sou”.

Prestemos atenção nessas palavras, “...que penetrasse todos os mistérios e tivesse perfeita ciência de todas as coisas, se não tiver amor, nada sou”.

Pergunto:

Por que nos meios espíritas se valoriza tanto o estudo doutrinário, ou seja, “o penetrar nos mistérios e aquisição da perfeita ciência de todas as coisas”, e tão pouco se trabalha para desenvolver amor?

Por que, com tantas possibilidades educativas do mundo moderno, quando a Psicologia e outras ciências vêm apresentando inúmeros recursos para ajudar o ser humano a trabalhar de forma positiva seus sentimentos, a ter mais equilíbrio, a viver melhor consigo e com os demais, por que o movimento espírita organizado não prioriza a vivência do Espiritismo, o crescimento interior, a geração de amor entre os trabalhadores da seara, os freqüentadores e as instituições?

O estudo doutrinário certamente é importante, porém mais ainda que esse mero estudo é a sua prática, a vivência daquilo que ele nos ensina.

Quantos de nós temos a cabeça cheia de conhecimento espírita, mas o coração vazio de amor! Isto representa desequilíbrio evolutivo, dificultando ou atrapalhando a caminhada.

O conhecimento que trazemos sinaliza para a prática do bem, da caridade. Esse já é um passo importante. É quando começamos a refletir luz, mas ainda não temos luz própria.

Mas quando começamos a desenvolver amor em nossos sentimentos, em todo o nosso interior, e este passa a irradiar-se de nós, refletindo-se em nossas atitudes, então começamos a ter luz própria, porque amor é luz de Deus.

Quando o movimento espírita passar a dedicar-se à vivencia dos ensinamentos do Mestre e do Espírito Verdade, então sim, estaremos fazendo um Espiritismo verdadeiro, com luz própria. Por enquanto essa luz ainda permanece um tanto quanto escondida nas páginas da codificação.

Vejamos a esse respeito alguns trechos extraídos dos livros de Ermance Dufaux.

“Amar é uma aprendizagem. Conviver é uma construção.”

Será que nas atividades da casa espírita somos conduzidos a essa aprendizagem do amor? Será que somos “trabalhados” no sentido de convivermos cada vez melhor? Há reuniões sistemáticas visando esse desiderato, de forma realmente prática e proveitosa? Estamos construindo um convívio verdadeiramente fraterno e alteritário?

“Não existe amor ou desamor à primeira vista, e sim simpatia ou antipatia. Amor não pode ser confundido com um sentimento ocasional e especialmente dirigido a alguém. Devemos entendê-lo como O Sentimento Divino que alcançamos a partir da conscientização de nossa condição de operários na obra universal, um “estado afetivo de plenitude”, incondicional, imparcial e crescente.”

O amor, realmente só o é quando incondicional, imparcial e crescente. É como uma fonte sempre em estado de doação, sem guardar-se para uns ou outros. Quem ama não necessita de que o amem, porque o amor verdadeiro nutre-se nas fontes do amor divino, ou cósmico.

Se refletirmos um pouco, podemos perceber o quanto o nosso amor é ainda um simulacro, mas conforme diz Ermance, é uma aprendizagem, portanto, podemos aprender a amar. Mas para isso não bastam meras leituras ou estudos, é preciso muito mais. As leituras e estudos predispõem, mas realizar a construção do amor na intimidade do ser a irradiar-se nas atitudes do cotidiano, pede firme decisão e exercício contínuo. Para tanto os centros espíritas podem organizar reuniões e oficinas, nas quais os participantes, unindo esforços e ideais, encontrarão inúmeros recursos que os ajudem efetivamente nessa construção.

“Mesmo entre aqueles que a simpatia brota instantaneamente, amor e convivência sadia serão obras do tempo, no esforço diário do entendimento e do compartilhamento mútuo do desejo de manter essa simpatia do primeiro contato, amadurecendo-a com o progresso dos elos entre ambos”. (...) “Relações exigem cuidados para serem edificadas no amor, e esse aprendizado exige os testes de aferição no transcorrer dos tempos.”

Uma instituição espírita que queira ter um ambiente fraterno e de bom convívio entre seus membros e freqüentadores, precisa desenvolver ações nesse sentido, buscando a educação dos sentimentos entre todos que por ali transitam. O mero conhecimento doutrinário e estudos do Evangelho não são suficientes. Quantos irmãos das mais diversas religiões que conhecem de cor os textos bíblicos e sabem citar exatamente onde se encontram tais e quais dizeres do Evangelho, vivem de forma absolutamente antifraterna, gananciosa, orgulhosa...

A cabeça cheia de conceitos espíritas só tem valor quando em sintonia com o coração, e refletindo-se nas ATITUDES.

 “A terapêutica do amor é, sem dúvida, a melhor e mais profilática medicação do Pai para seus filhos na criação. Compete-nos, aos que nos encontramos à míngua de paz, experimentá-la em nossos dias, gerando fatos abundantes de amor, vibrando em uníssono com as sábias determinações cósmicas estatuídas para a felicidade do ser na aquisição do glorioso e definitivo título de Filhos de Deus.”

Ermance fala em gerar fatos abundantes de amor..., mas para isso necessitamos desenvolvê-lo em nós. Entretanto, se entendermos que bastarão pequenas ações aqui e ali, estaremos apenas nos enganando. Para que o amor venha a fluir de nós, assim como as águas fluem de uma fonte, é preciso priorizar a abertura de canais para o mais Alto e assim, nutrindo-nos no amor universal, aprendermos a estabelecer a sua presença em nós, a dinamizá-lo, a imprimi-lo em todo os nosso ser.

Um bom exercício para desenvolver esse sentimento divinal é acostumarmo-nos a olhar para qualquer pessoa, seja quem for, e sentir por ela afeto, carinho, desejando-lhe tudo de bom. Isto fica mais difícil quando se trata de algum desafeto ou alguém com aspecto de pessoa má ou desagradável, mas é justamente aí que começamos a vivenciar o amor incondicional. Esse exercício tem vários efeitos benéficos, porque imprimir amor nos sentimentos nos eleva a freqüência vibratória, livrando-nos da sintonia com irmãos das sombras; fortalece nosso sistema imunológico, conforme a ciência vem constatando, favorecendo assim a saúde e o bem-estar, sem falar na grandiosa construção desse sentimento em nós, o mais importante dos valores, priorizado por Jesus quando formulou o maior de todos os mandamentos, dizendo: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.

Santificação de adorno

Quando tomamos contato com o Espiritismo e passamos a participar de reuniões, ouvir palestrar, ler livros espíritas, nos encantamos com a beleza dessa Doutrina e ingressamos nessa corrente que visa a evolução do ser, a transmutação de valores negativos em positivos. E, com o passar do tempo, sutilmente também vamos incorporando às nossas atitudes exteriores a “santidade de adorno”, da qual fala Ermance Dufaux no livro Reforma Íntima sem Martírio. Isto ocorre por assimilarmos aquelas idéias, que fluem como “clichês” nos nossos ambientes, de que o espírita precisa ser assim ou assado, que não pode isso, não pode aquilo e, então, muitas vezes sem nem perceber, acabamos por apresentar comportamentos que ainda não têm raízes mais profundas no terreno da alma. A adoção de tais máscaras de uma santidade irreal é muito natural no nível evolutivo em que nos encontramos, mas prejudica muito nossa evolução, além de nos causar profundas decepções quando retornarmos ao mundo espiritual.

Além disso, estamos no limiar de uma nova era para a humanidade e ingressando num novo período para o Espiritismo.

Portanto é hora de começarmos a nos olhar com muita clareza e verdade, mergulhar em nosso interior, além de qualquer máscara, e sem qualquer constrangimento diante de tantos valores negativos, tantas manhas e artimanhas que iremos observar nesse mergulho, iniciar o trabalho do nosso crescimento consciente como seres cósmicos que somos. E esse próprio crescimento irá nos levar firmemente a retirar as velhas máscaras, mas não com aquela postura habitual em cujo bojo está a sutil intenção de que os outros nos vejam como portadores da tão decantada virtude, a humildade. 

Esse é um passo dificílimo, principalmente para quem é visto como um “bom espírita” e para quem ocupa posições de destaque nas atividades ou dentro da instituição.

Então pergunto: o que é mais importante? crescer no conceito da nossa comunidade, mas sofrer no além-túmulo, carregando seqüelas para as futuras encarnações, ou conduzir-nos (nos pensamentos, atitudes, palavras, sentimentos e ações) visando tão somente buscar nosso crescimento interior, apoiando-nos, inclusive, uns nos outros, para mais facilmente podermos alcançar nossas metas, sem recear julgamentos humanos, nem mesmo discriminações?

Essa segunda opção certamente é bem mais difícil, mas de que vale caminhar por caminhos mais fáceis quando encarnados, para depois sofrer no mundo espiritual e ter de recomeçar tudo em futuras encarnações? Aqui cabe lembrar aquela conhecida exortação de Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta que leva à perdição”.

Se não entrarmos por essa porta estreita, além de atrasar nossa própria evolução estaremos também engessando a daqueles que seguem conosco, e que podem estar vendo em nós modelos ou líderes.

Cultura do sofrimento

No livro Reforma Íntima Sem Martírio, Ermance, falando sobre o sofrimento, assim se expressa:

“O culto à dor tornou-se uma cultura nos ambientes espíritas. Condicionou-se a idéias de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a compreender a “dor-punitiva” como instrumento de libertação, quando, em verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.”

Se nossa humanidade está transitando de mundo de provas e expiações para a condição de regeneração, conforme informam os espíritos, está claro que a nossa mentalidade também precisa ser reformulada, para atender com segurança as necessidades dessa transição. Se continuarmos engessados no pensamento antigo, calcado na temática do sofrimento como necessidade expiatória, como poderemos trabalhar pelo novo modelo?

Aquela idéia de que “vamos sofrer resignadamente porque receberemos recompensas no mundo espiritual” está começando a mudar para um discurso mais saudável e progressista: “vamos buscar o nosso crescimento interior, desenvolver nossas qualidades superiores, nossas potencialidades e principalmente o amor; ajudar a comunidade procurando levar-lhe as verdades espirituais, além de trabalhar visando conscientizá-la quanto à importância da sua participação na transformação do mundo; auxiliar o ser humano a comandar seus estados de espírito, a erguer-se e caminhar com os próprios pés”.

É a cruz transformando-se em instrumento de trabalho, de crescimento e de alegria.

A “cultura do sofrimento” nos oprime, a da “auto-ajuda” nos dá vitalidade, alegria e promove saúde e bem-estar.

Pela “cultura do sofrimento” o espírita não deve ser uma pessoa feliz, alegre, de bem com a vida, e não deve vivenciar prazeres, nem mesmo os mais inocentes, mas ter sempre presente a sua realidade de “grande devedor” que, por misericórdia divina, está tendo a oportunidade de carregar seu pesado carma, arrastando-o vida afora, com as lágrimas escorrendo pelo rosto ou sufocadas em angústias interiores, e a esperança de vir a ser feliz depois que retornar ao mundo espiritual.

Será que Deus criou os seres para sofrerem?

Já a auto-ajuda, ao contrário do que muitos espíritas entendem, significa desenvolver recursos internos para transformar velhas viciações da alma em valores positivos, naqueles mesmos que Jesus ensinou; buscar meios para construir em si mesmo a paz, a harmonia e o equilíbrio; cuidar melhor do interior, para que o corpo responda com saúde e bem-estar.

Cultivar estados de espírito leves, otimistas, fraternos, confiantes, de esperança e de contentamento representam poderosa ajuda que podemos dar a nós mesmos.

E lembremos que o Mestre sempre dizia, “Levanta-te e anda”.

O grande papel do sofrimento e das dificuldades não é, pois, o da mão que castiga, mas sim, o do professor que ensina a ciência do bem-viver.

As responsabilidades que assumimos com o trabalho na seara espírita e o respeito que lhe devemos, não precisam revestir-se com ar carrancudo, mas devem refletir-se em atitudes que iluminam, levantam, fortalecem, tornando o ambiente mais fraterno e mais feliz.

 Crescimento interior – Conformação 

Mas a “cultura do sofrimento” também carreia outras posturas com aspectos negativos, tais como a da conformação.

Por certo é importante aceitarmos o sofrimento que não pudermos mudar, mas há diferenças entre aceitar e conformar-se, como também é indiscutível que podemos, sempre, mudar nossa vida para melhor, começando por melhorar os próprios estados de espírito e as atitudes. E, mesmo aceitando o sofrimento como necessário à evolução, ou como retorno de atos do presente ou do passado, devemos recebê-lo como lição e não como carga.

Por esses novos enfoques podemos também perceber a importância de começarmos a mudar aquele tom que é usado em alguns centros espíritas, o da voz melíflua, chorosa, piegas, orientando para a conformação, colocando como exemplo os sofrimentos de Jesus e acenando com as recompensas futuras. A nova civilização que está para nascer pede discursos diferentes, aproveitando, inclusive, o muito de bom que já existe na área do conhecimento humano, visando o crescimento da criatura em toda a sua plenitude.

Assim, entendemos que é hora de começarmos a abandonar aquelas idéias de comprar um lugar no Céu, ou na colônia espiritual Nosso Lar, através da conformação, uma postura estagnante que ainda voeja nas cabeças de muitos espíritas quando entendem ser necessário sofrer a fim de purificar a alma, ou para pagar culpas do passado, como se apenas pagar essas culpas fosse o suficiente para elevar alguém a planos mais luminosos.

 Certamente, no novo modelo que deverá nortear o mundo de regeneração, serão utilizados caminhos outros, que não apenas a dor, para a evolução dos seres.

A largueza de vistas do Espiritismo mostra ao ser humano que ele deve buscar a felicidade, o bem-estar, o contentamento, desde que não arranhe a ética cósmica, ou seja, as leis de Deus.

 Crescimento interior

Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.

(Chico Xavier)”

 Em nossa orgulhosa imaturidade sempre acreditamos que sabemos tudo.

Se nos chega às mãos algo, uma mensagem, um livro, que trata de questões relacionadas com a nossa reforma moral ou crescimento interior, de imediato nos domina a idéia de que nada ali será novidade para nós, que já conhecemos tudo a esse respeito. Isto se explica em razão dos nossos percursos mais ou menos longos no estudo do Evangelho e seus desdobramentos.

Mas quando nos debruçamos sobre trabalhos como esses da coleção de livros do espírito Ermance Dufaux, começamos a perceber neles novos enfoques, novos desdobramentos, e podemos dizer com tranqüilidade que estamos diante de novos paradigmas. E logo mais observamos o quanto estamos necessitados de transformar velhas idéias (que foram boas para a época em que dominaram) em novos rumos, em novas vivências, em novas atitudes.

E essas mudanças, percebemos, precisam ser radicais.

Passamos também a entender como elas se tornam imperiosas, tendo em vista que nossa humanidade já está dando os primeiros passos na transição de mundo de provas e expiações para mundo de regeneração, de forma quase imperceptível aos observadores comuns, mas de maneira seguraaos que se detêm a analisar as inúmeras mudanças em gestação e algumas já em pleno vigor. Basta nos inteirarmos dos muitos movimentos que vêm surgindo, visando o bem coletivo, a ética, a fraternidade, a preservação da natureza, a paz, o crescimento interior do ser, etc.

Então, um contato verdadeiro, com humildade e de alma aberta, com a mensagem trazida por Ermance, mas oriunda de planos ainda mais elevados, nos leva a reflexões que acabam por “chamuscar” nossa alma por completo, ao percebermos com clareza nosso interior, os disfarces que usamos para fugir da realidade mais íntima que nos molesta profundamente porque ainda não assimilamos a idéia de que somos verdadeiramente seres em fases ainda um tanto primárias da evolução espiritual. Se até hoje temos ocultado de nós mesmos essa constatação é porque ela nos incomoda. Nosso orgulho nos sugere idéias de grandezas que ainda não alcançamos, daí o uso de máscaras e disfarces para ocultar a nós próprios e aos outros a nossa crua realidade. É o mesmo que colocar efeitos no espelho da alma para que esta não se veja nas suas cores e formas reais, e com isso não perca estímulos de vida, tais como a auto-estima. É uma espécie de instinto de conservação.

Mas se isto foi natural até ontem, hoje precisamos começar a encarar nossa verdadeira face, porque já estamos suficientemente amadurecidos; aprender a olhar para dentro de nós com clareza e, apesar das inferioridades ali encontradas, amar-nos mais do que nunca, amarmos a nossa luz e também a nossa sombra porque tudo isto faz parte natural do nosso crescimento.

Estamos precisando dar mais um passo, subir mais um degrau, mudar velhos paradigmas que foram criados em razão da nossa pouca idade sideral.

Assim, ao invés de tentarmos “matar” em nós o homem velho, que representa tudo de bom e de ruim que vivenciamos ao longo dos milênios e das reencarnações, e que forma a estrutura do nosso psiquismo, devemos amá-lo e conquistá-lo para transmutar suas sombras em luz.

A época não é de destruição, mas de crescimento.

 Crescimento interior –  convívio 

A seguir, alguns trechos pinçados dos livros de Ermance Dufaux e que alicerçam um workshop que vem sendo apresentado pelo Psicólogo e expositor espírita Alkíndar de Oliveira. Convém notar como cada uma dessas observações da autora espiritual daria assunto para reflexões e debates por longas horas, e servem como roteiro para oficinas voltadas ao crescimento interior.

“Palavras de Ermance, extraídas dos livros Unidos pelo Amor, Mereça ser Feliz e Reforma Íntima sem Martírio.

 

  • Conviver fraternalmente deve ser a essência da nossa causa.

  • O Centro Espírita, Escola das Virtudes Superiores, é o ambiente de disciplina e treinamento dos novos modelos de relações.

  • Antes dos projetos “além-paredes”, estimulemos a fraternidade, prioritariamente, ao próximo mais próximo, aquele que divide conosco as responsabilidades doutrinárias rotineiras em nossa casa espírita, encetando esforços pela convivência jubilosa e libertadora.

  • Reforma íntima não é exterminar o mal em nós, e sim, fortalecer o bem que está adormecido na consciência.

  • Aprender a discordar sem gostar menos, de nossos companheiros.

  • Aceitar cada pessoa como é, procurando entender os “porquês” dos incômodos que sentimos com esse ou aquele coração.

  • Pensar sempre com bondade sobre quaisquer pessoas, em quaisquer situações.

  •  Se cada qual ocupar-se de oferecer o melhor de si, deixando o hábito milenar de encontrar os problemas fora de nós, o grupo do qual fazemos parte será lavoura fértil e produtiva para os frutos saborosos e refazentes da convivência salutar, em clima de alegria e motivação.

A questão nunca é como convivemos com o outro, mas, sim, o que sentimos e o que pensamos em relação ao outro.

Não existe felicidade sem pleno conhecimento de si mesmo. O mergulho nas águas abissais do mar íntimo é indispensável. E a convivência, nesse contexto, é a Escola Bendita.

Saber os motivos de nossas reações frente aos outros, entender os sentimentos e idéias nas relações é preciosa lição para o engrandecimento da alma na busca de si próprio.

É preciso manter sempre os limites sensatos da proximidade, sem a intimidade que corrói a harmonia e a saúde dos relacionamentos.” 

           Crescimento interior – orgulho 

No livro Mereça ser Feliz, Ermance analisa algumas manifestações do orgulho, indicando sempre um roteiro reeducativo. Também aqui, podemos perceber como cada uma das observações da autora espiritual daria assunto para longas reflexões e debates, e servem como roteiro para oficinas voltadas ao crescimento interior.

“Melindre é o orgulho na mágoa. Cultivemos a coragem de ser criticados.”

“Pretensão é o orgulho nas aspirações. Aprendamos a nos contentar com a alegria de trabalhar, sem expectativas pessoais.”

“Presunção é o orgulho no saber. Tomemos por divisa que toda opinião deve ser escutada com o desejo de aprender.”

“Preconceito é o orgulho nas concepções. Habituemos a manter análises imparciais e flexíveis.”

“Indiferença é o orgulho na sensibilidade. Adotemos a aceitação e respeito em todas ocasiões de êxitos e insucessos alheios.”

“Desprezo é o orgulho no entendimento. Acostumemos a pensar que para Deus tudo tem valor, mesmo que por agora não o compreendamos.”

“Personalismo é o orgulho centrado no eu. Eduquemos a abnegação nas atitudes.”

“Vaidade é o orgulho do que se imagina ser. Procuremos conhecer a nós mesmos e ter coragem para aceitarmo-nos tais quais somos, fazendo o melhor que pudermos na melhoria pessoal.”

“Inveja é o orgulho perante as vitórias alheias. Admitamos que temos esse sentimento e o enfrentemos com dignidade e humildade.”

“Falsa modéstia é o orgulho da ‘humildade artificial’. Esforcemos pela simplicidade que vem da alma sem querer impressionar.”

“A prepotência é o orgulho do poder.Aprendamos o poder interior conosco mesmo transformando a prepotência em autoridade.”

“Dissimulação é o orgulho nas aparências. Esforcemos por ser quem somos, sem receios, amando-nos como somos.”

“Precisaremos de muita coragem para ser humildes, ser o que somos...”

“Ser humilde é tirar as capas que colocamos com o orgulho ao longo dessa caminhada...”  

         Crescimento interior - Culpa 

Diz Ermance:

“A culpa não renova, limita. Não educa, contém.”

“A culpa nasce no ato de avaliar o direito natural de errar como sendo um pecado que merece ser castigado.”

 

Uma das algemas que engessam a evolução do ser está nos sentimentos de CULPA, nem sempre pertinentes, que foram introduzidos no psiquismo dos cristãos, como instrumento de manipulação e domínio psíquico. É natural que um “fiel”, sentindo-se culpado perante Deus ou diante da igreja, entendida por ele como representante legal da divindade, torne-se elemento frágil e suscetível às mais diversas manipulações.

Mas o espírita não deve sentir-se culpado perante Deus, e sim, diante da própria consciência, assim como, também, diante de quem vitimou, porque o Ser Supremo não se ofende, não se magoa nem se aborrece com nossos erros. As suas leis existem, não para nos cercear ou violentar, mas para nos orientar a evolução.

Reportamo-nos mais uma vez ao espírito Ermance Dufaux, quando diz:

“Freqüentemente existe um trio de sicários da alma que a chicoteiam durante as etapas do amadurecimento, são eles: baixa auto-estima, culpa e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos para gerenciá-los. Assim, a culpa transforma-se em auto-aferição da conduta e freio contra novas quedas, a baixa auto-estima converte-se em capacidade de descobrir valores e o medo de errar promove-se a valoroso arquivo de experiências e desapego de padrões.”

Sentimentos de culpa, portanto, só são válidos como força propulsora para os devidos resgates e o crescimento interior do ser.

A propósito, este é um tema que deveria merecer, principalmente dos palestrantes e dirigentes espíritas, maior cuidado, particularmente ao tratar de questões como o aborto e o suicídio, para que não agravem ainda mais algumas situações, lembrando que as pessoas envolvidas em tais ações, certamente já carregam grandes sofrimentos ou graves pesos conscienciais.

Certamente pelo grande número de palestras que alguém faz, ano após ano, acaba se automatizando. O fluxo de palavras desce de forma quase automática dos arquivos mentais, sem passar pelo crivo do bom senso, do questionamento, sem a preocupação de saber se devem ser ditas ou caladas. Muitas vezes os discursos ou as respostas já estão prontinhos e na “ponta da língua”, sem serem tocados pelas asas da razão, sem que se questione se são oportunos e adequados à situação e ao momento. Também a empolgação por estar frente a um público que o ouve atentamente, criando certa relação de poder, pode gerar descuidos profundamente prejudiciais.

Muitas das perguntas que são feitas a espíritas abrangem situações com mais de uma vertente. Daí, também, a necessidade de sempre refletir antes de responder e, se não souber com segurança, deve-se ter a humildade de dizê-lo.

Inúmeros são os casos, às vezes muito delicados, de pessoas que ouviram de espíritas que gozam de credibilidade respostas peremptórias às suas perguntas, e essas respostas, posteriormente, foram desmentidas pelos acontecimentos. Além de causar prejuízos a essas pessoas, isso gera descrédito para o próprio Espiritismo.

Por isso é fundamental que aqueles que falam em nome desta doutrina sejam cautelosos no falar, que reflitam antes de dizer algo que possa vir em prejuízo de quem está necessitando de apoio, conhecimento ou ajuda.

Espiritismo não deve ser decorado, mas refletido.

 Crescimento interior - Plenitude

 

Estamos habituados a entender o Espiritismo como o caminho para a evolução moral e espiritual do ser, e o sofrimento como recurso para sua redenção.

Mas devido à evolução do conhecimento e das muitas áreas do saber voltadas para beneficiar o ser humano, como também às mudanças solicitadas por esta época de transição, podemos começar a ver no Espiritismo não apenas um caminho religioso, visando à evolução espiritual do ser, mas todo um contexto que pode favorecê-lo com mais equilíbrio, saúde, harmonia, melhor convívio, melhor qualidade de vida e felicidade, enfim, proporcionar-lhe uma vida realmente mais plena.

 Isso pode ser percebido, quando ampliamos os antigos enfoques, acrescentando à idéia de Espiritismo como fator moral-espiritual, outras como “poderoso instrumento na busca ao homem integral, ao ser pleno, saudável, de bem com a vida”.

Também o conceito de sofrimento como caminho para a redenção da criatura, podemos passar a perceber como instrumento para o seu despertar, para alavancar seu processo de crescimento interior.

São mudanças de visão que impulsionam nossa evolução.

E há ainda a questão dos companheiros que entendem que o Espiritismo é suficiente para solucionar todos os problemas vivenciais. Ocorre que há casos em que o apoio profissional é imprescindível para minimizar ou eliminar traumas, fobias, complexos e condicionamentos, que poderão refletir-se na saúde física e no equilíbrio psíquico.

É fácil observar como no mundo moderno as dificuldades e os problemas ligados à psique vêm se multiplicando. Nos meios espíritas, em alguns centros, situações dessa natureza são tratadas como sendo tão-somente de origem espiritual, e quando um companheiro está sofrendo de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico, muitas vezes é rotulado como obsediado. Isto reflete absoluta falta de fraternidade e de conhecimento. É preciso entender que inúmeros desses casos resultam de problemas orgânicos, bioquímicos e energéticos, embora possam ter raízes em ocorrências de vidas passadas, como também podem apresentar algum componente espiritual. Nessas situações, por receio de serem rotulados como obsediados, inúmeros seareiros preferem afastar-se dos trabalhos espíritas, a dizer que estão sofrendo de problemas dessa natureza. E onde fica o AMOR nessas situações?

Não será oportuno passarmos a valorizar também os aspectos médico e psicológico dos nossos companheiros de atividades espíritas, orientando, quando necessário, para a busca de ajuda profissional? Isto, é claro, sem criar-lhes qualquer sombra de estigma ou rótulo.

Como podemos facilmente perceber, é tempo de começarmos a desenvolver mais consciência crítica, mudar os enfoques que devam ser mudados e, nesse contexto, trabalhar intensamente pelo próprio crescimento interior. 

Crescimento interior na prática

 No livro Laços de Afeto, Ermance pergunta:

“O centro espírita tem arregimentado um programa para ensinar a transformação íntima? Tem havido clima nos grupos para que os tarefeiros possam dialogar construtivamente sobre seus conflitos?”

“Temos nos iludido, transferindo responsabilidades pessoais para as ações obsessivas de desencarnados?”

“Temos desenvolvido a razão, mas, temos trabalhado o afeto?”

 Qualquer ganho na evolução está diretamente ligado à reforma interior que também é caminho para o equilíbrio e o bem-estar, mas ela não será alcançada apenas pelo estudo doutrinário, a leitura de belas mensagens ou por assistir a discursos emocionados.

É preciso ir além, estabelecer programas, utilizar recursos outros, tais como reuniões ou estudos interativos, além de oficinas com a utilização de exercícios e técnicas já existentes e outras que forem criadas, que possam efetivamente ajudar a pessoa a transmutar valores negativos em positivos.

A decisão de desenvolver determinado valor e o trabalho contínuo nesse sentido começam proporcionando ganhos de superfície. Com a continuidade do esforço esses ganhos vão se aprofundando até alcançarem o inconsciente, gerando ali as devidas transformações que passam a manifestar-se através do psiquismo em ATITUDES, não mais de superfície, mas resultantes de uma nova realidade interior.

Tais resultados, no entanto, só se conseguem mediante grande esforço e quando este passa a ser a nossa grande prioridade.

Para tanto, os trabalhos em grupo são os mais indicados. Há mais estímulo, os companheiros podem trocar experiências, aprender uns com os outros, incentivar-se, nutrir a contínua motivação, sem a qual fica difícil prosseguir. Menção aos Alcoólicos Anônimos, que encontram sua força justamente nas reuniões direcionadas ao fim proposto.

Um grupo que se reúne visando crescer interiormente transforma-se numa força coletiva, onde todos se ajudam mutuamente, força essa capaz de realmente transformar o homem velho em novo.

Outro recurso bastante eficiente está nos exercícios de relaxamento com visualizações que revitalizam o inconsciente, introjetando idéias e imagens positivas, fraternas e de elevado teor espiritual. É bom lembrar que o nosso inconsciente é um porão repleto de imagens mentais saturadas de angústia, medo, frustrações e mágoas, sem falar nos núcleos onde se enraízam expressões como o egoísmo, o orgulho, a ganância, o desamor, a crueldade e outros assemelhados a se manifestarem em nossas emoções, sentimentos, pensamentos e atitudes, nos obrigando a uma contínua vigilância. As visualizações positivas e de elevado teor espiritual vão lentamente transmutando aquelas imagens pesadas em outras mais leves e luminosas, assim como também vão transformando os núcleos de valores negativos em positivos. Ainda estamos muito distantes de conhecer minimamente os nossos potenciais mentais e da área dos sentimentos.

Um livro que poderá servir como apoio é de nossa autoria e intitula-se Crescimento Interior.

Em sua primeira parte apresentamos um roteiro, um modelo/sugestão para reuniões, que pode ser adotado por grupos ou instituições, ou ainda, realizado em casa, da mesma forma como se faz o Evangelho no lar. A segunda parte é um manual individual.

 Esse livro pode ser adquirido a preço de custo nesta editora pelos grupos que o adotarem como roteiro ou apoio.

 Mudanças necessárias

 

Na verdade há inúmeros aspectos nas lides espíritas que precisam ser repensados com profundidade, como os que dizem respeito a alguns enfoques, algumas metodologias e atividades, visando adequá-los ao novo tempo. Exemplos:

a) mudar termos como expiação, para reajuste; carma expiatório, para carma evolutivo; conformação para aceitação; culpa, para responsabilidade, etc.

b) repensar o significado de palavras como salvação e caridade;

c) analisar a questão da idolatria, tanto em relação a desencarnados, quanto a encarnados;

d) a forma como entendemos a missão de Jesus que ainda é vista por muitos espíritas como a do “salvador” quando, na verdade, Ele foi e é o Mestre, que veio ensinar o caminho da evolução espiritual e também a ciência do bem-viver;

e) a forma como recebemos e tratamos os que nos procuram, necessitados de ajuda;

f) como tratamos nossos companheiros de seara;

g) como entender e praticar a alteridade;

h) que fazer para melhorar as metodologias empregadas nos diversos cursos, palestras, etc. visando torná-los mais atraentes e mais produtivos.

Os centros espíritas que quiserem encontrarão muitas maneiras para desenvolver naqueles que circulam entre suas paredes, uma cultura de crescimento interior. Isto pode ser feito através de reuniões específicas, oficinas, inserção desse tema nas reuniões, distribuição de folhetos apropriados, colocação de cartazes, como por exemplo: “Pense nas pessoas que estão neste ambiente e envolva-as numa vibração de afeto, confiança e alegria.” ou “Quer evoluir? Passe a desenvolver de forma contínua um estado de espírito fraterno e jubiloso”.

Se a diretoria de um centro se reúne visando a determinado fim, certamente encontrará os melhores caminhos para alcançá-lo. 

Uma forma prática para desenvolver amor.

  •  Imprimir sempre em todo o ser um sentimento de fraternidade ou de amor pleno, dentro de um enfoque alteritário.

  • O amor, quando vivenciado junto com a alteridade, representa um extraordinário empuxo evolutivo.

  • O amor é o VALOR por excelência, e na alteridade encontramos o melhor instrumento para uma convivência fraterna e harmoniosa.

  • O amor inclui a solidariedade, a compreensão, o perdão, a ajuda mútua, a humildade...

  • O amor exclui o despeito, a maledicência, os melindres, as fofocas, as críticas negativas, as malquerenças, o orgulho, a vaidade, o despeito, a ambição...

Imagine-se a seguinte situação:

“Alguém faz uma auto-avaliação e conclui que está precisando corrigir-se do melindre, da vaidade, do egoísmo, da prepotência e do rancor, entendendo que deve priorizar o combate ao egoísmo, seu valor negativo mais forte, para depois passar para os demais, cinco ao todo”.

Mesmo que fique constantemente atento à determinação de liberar-se do egoísmo, quanto tempo levará para consegui-lo?

E os outros quatro valores negativos restantes?

Mas, se essa pessoa se fixa em apenas uma ação constante, a de imprimir em seus sentimentos o amor pleno, com essa única ação estará transmutando aqueles cinco valores negativos em positivos.

Se acrescentar a esse foco a alteridade, com essa ação dupla – imprimir em todo o ser o amor e a alteridade – estará trabalhando intensa e plenamente pelo ganho de valores morais e espirituais, ou seja, pela sua reforma e crescimento interior.

Os sentimentos de amor e fraternidade no âmbito físico têm o poder de relaxar, eliminar estresse e possibilitar melhor circulação de energias no organismo, além de fortalecer o sistema imunológico. Equivale a saúde e bem-estar.

No âmbito espiritual são o melhor antídoto para o orgulho, o egoísmo, a ambição, a ganância, a agressividade e tantos outros valores negativos. Predispõem à paz, brandura, bom relacionamento, compreensão, tolerância, equilíbrio e diversos outros valores positivos, abrindo caminhos para a sabedoria.

O amor é um estado de espírito. A alteridade representa um elevado nível de compreensão.

Os sentimentos fraternos e alteritários, envoltos em júbilo, refletem o esplendor das leis de Deus. Imprimi-los continuamente nas próprias emoções é caminhar nessa luz.

Esta é uma das maneiras mais fáceis de crescer interiormente. Basta querer. 

Outra forma de colaborar

Se possuímos conhecimentos mais avançados e sabemos que podemos colaborar mais efetivamente na transição do nosso mundo para um modelo melhor, não apenas pelas atividades comuns nos centros, mas também através da prece, das vibrações e visualizações voltadas para a humanidade, que estamos esperando para iniciar um amplo movimento nesse sentido?

Você que é dirigente, trabalhador da seara, freqüentador ou mero leitor de obras espíritas reflita sobre a importância do momento que estamos vivendo. Lembre que a nossa responsabilidade ante a coletividade se amplia na medida em que vamos adquirindo mais conhecimentos, capacidade e aptidões. Pense o quanto pode ajudar, desenvolvendo vibrações benéficas direcionadas à comunidade espírita e, mais ainda, quando habituar-se a sempre enviar pensamentos e emoções positivos, luminosos, para nossa humanidade e nosso planeta, acrescidos de pedidos ao Pai Celestial para abençoar a nossa nave cósmica. Essas vibrações, essas energias, irão somar-se a outras de igual teor, o que irá ajudar, e muito, nesta difícil transição planetária, que já está começando a dar seus primeiros sinais.

Quando a nossa vida pessoal ou a de algum familiar está complicada, com dificuldades, que fazemos? Além das providencias cabíveis, o nosso pensamento se volta sempre para o Alto, em busca da ajuda divina; muitas vezes pedimos preces aos amigos, aos companheiros da Casa espírita, e procuramos envolver a situação numa vibração benéfica.

Se a nossa Casa Planetária está complicada, em dificuldades, por que não fazermos o mesmo? Se o mundo vai mal, nós também sofremos com ele. Se a humanidade caminha à beira de um abismo, nós estamos caminhando com ela.  

Você está convidado

Se somos daqueles que receberam muitos talentos, cumpre-nos utilizá-los da melhor forma que pudermos, particularmente no que tange ao nosso crescimento interior, do qual depende a renovação do próprio movimento espírita

Assim, todo companheiro interessado em crescer espiritualmente e ajudar o nosso movimento a tomar o rumo de sua destinação ESTÁ CONVIDADO a iniciar um novo ciclo de reposicionamentos, um repensar de atitudes, um mergulhar profundo na intimidade de si mesmo, em busca dos valores divinos que ali ainda dormitam.

Traga pois você também o seu amor, seu entusiasmo e sua alegria, e parta em busca da esperança, vislumbrada em novas luzes no final do túnel. 

Em novembro/2004 aconteceu em Belo Horizonte um encontro de companheiros espíritas que, em contato com os livros de Ermance, haviam sentido, em profundidade, a necessidade urgente e premente de trabalhar pelo próprio crescimento em bases mais atuais e mais adequadas a esta época de transição que estamos vivenciando. Mais de cem pessoas, das mais diversas partes do país, trocaram idéias e experiências, firmemente decididas a continuar desenvolvendo sentimentos e ATITUDES de amor, de afetividade, de alteridade, de contentamento e demais valores tão bem apresentados por Ermance, assim como, também, de levar esse “trabalho” para o âmbito das instituições nas quais militam.

Foi um evento inesquecível, no decorrer do qual era possível sentir no próprio ar o amor, o afeto e a alegria, em vibrações de poderosas motivações para a continuidade desse trabalho que visa algo muito difícil e que sempre encontra inúmeros opositores, uma mudança de paradigmas. 

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